quarta-feira, 9 de maio de 2007

Vocação

“O significado religioso de vocação (...) é algo que alguém é chamado para fazer, que pode ou não coincidir com a sua ocupação ou com aquilo que está realmente fazendo. (...) A vocação implica relacionamento. Por que se alguém é chamado, alguém está fazendo o chamamento. Esse alguém é Deus. (...) Esse chamamento é absolutamente individualizado. O que Deus me chama para fazer não é, necessariamente, o que chama você para fazer.” *

Dr. Morris Cerullo enfatizou ontem numa conferência que “Deus nunca envia alguém sem antes lhe dar uma experiência.” Ele repetiu isto diversas vezes como se quisesse alertar para algumas implicações deste fato:
1. Se uma pessoa se sente chamada para alguma coisa, deve esperar que Deus lhe dê uma experiência que torne aquele chamado claro, que o capacite para executar tal serviço.
2. O tamanho da vocação de alguém é proporcional à extensão e alcance da experiência. Se a experiência que tenho é pequena, espera-se que a vocação não seja grande segundo os padrões já construídos dentro da comunidade cristã local e mundial (para ilustrar grandes vocações: Benny Him, Rick Warren, Charles Finney, C.S. Lewis, Lutero e Calvino).

Presenciei algumas manifestações sobrenaturais e o Espírito de Deus movendo-se naquele lugar. Mas fiquei na expectativa de que algo especial, sobrenatural acontecesse comigo naquela noite. Nada assim aconteceu. Repetidas vezes Dr. Cerullo perguntou-nos: “Quem deseja ser usado por Deus?” E quando levantávamos nossas mãos, ele repetia a mesma frase: “Deus nunca envia alguém sem antes lhe dar uma experiência.” Partindo deste pressuposto, eu pedi uma experiência especial com Deus. Eu já estava na expectativa de que Deus me falaria, me faria algo diferente naquela noite, pois há algum tempo venho me debatendo sobre a questão da vocação. Entretanto, somente o trivial me ocorreu.

Depois que saí da reunião, fiquei conversando com Deus. Meio desapontado, mas ainda crendo na soberana sabedoria de Deus, fiquei sinceramente questionando a Ele sobre algumas dúvidas que têm surgido dentro de mim nos últimos dias e que depois de ontem à noite vieram de maneira mais clara. Consegui escutar algumas respostas. Foram duras (pelo menos para meu coração cheio de expectativas acima da média), mas podem solucionar metade de meus questionamentos:
1. Vejo agora que a maioria das pessoas que tiveram uma grande vocação, seja na bíblia, seja na história do cristianismo, não estavam pedindo de Deus este chamado. O Senhor simplesmente vinha, escolhia e lhes dava a experiência de que Dr. Cerullo falou. Você já leu que Jeremias estava orando a Jeová para que fosse enviado como profeta antes do capítulo 1 de seu livro? Estava Paulo clamando por enviado aos gentios quando Jesus lhe apareceu no caminho de Damasco? Por acaso Davi cuidava de ovelhas enquanto sonhava com o reinado? Será que Noé orou pedindo que Deus lhe falasse sobre a Arca? Todas estas perguntas têm uma mesma resposta: não.
Isto me faz pensar que talvez eu não tenha sido chamado para uma grande vocação. E de uma maneira estranha, isto me causa certo desconforto. Por que não? O que me desqualificou para este chamado? Alguns poderiam dizer que Deus escolhe quem Ele quer, pois Paulo ensinou aos romanos que “o oleiro não tem direito de fazer do mesmo barro um vaso para fins nobres e outro para uso desonroso?”# Então me pergunto: será que a composição do barro não o torna mais propício para um fim ou outro? Será que o oleiro não analisa sua consistência, cor e composição antes de decidir que fim dará àquela matéria-prima?
2. Se for assim, algo em mim pode ter me tornado reprovável para uma vocação extraordinária. Mas o quê? Tenho plena certeza de que somente no céu saberei a resposta exata desta pergunta. Mas tenho algumas pistas. Talvez eu só quisesse ser alguém especial; de alguma maneira ser o melhor em alguma coisa. Isto é um desejo normal para todo ser humano. Queremos ser realmente bons em alguma coisa nesta vida. Mas vocações divinas não são para nossa realização pessoal. Eu estaria desqualificado para tal grandioso propósito pelo fato de que, em algum momento, minha busca por reconhecimento tiraria o foco das pessoas de Deus e o colocaria em mim. Por isto, talvez, uma vocação acima do comum me fizesse desviar do verdadeiro propósito que é trazer glória a Deus. Sob este ponto de vista, eu não iria querer mesmo uma vocação que me fizesse ficar longe de Deus.
3. Além disto, “o fato de querermos fazer algo não implica, necessariamente, que seja o que Deus quer que façamos, ou nos chame para fazê-lo. (...) Alguns podem não ser chamados no mais profundo do seu ser para algo que, superficialmente, querem fazer.” §
4. Rick Warren escreveu no prefácio de seu livro Uma Igreja com Propósitos que ele admira os ministros bivocacionados. Alguém com esta dupla vocação é como um pastor numa pequena igreja rural no interior do Nordeste brasileiro que também é um pai de família e pequeno agricultor. Bivocação é uma mistura de chamado santo e secular. Um professor de escola dominical que também é um motorista de ônibus. Quem sabe minha vocação não é, na verdade, uma bivocação? Quem sabe uma simples (e ressalte-se a palavra simples) bivocação não seja uma solução divina para minha quase megalomania espiritual? Foi o próprio Jesus quem deixou seus ouvintes atônitos quando disse quem era o maior homem do mundo segundo o ponto de vista de Deus. Não se tratava do governador da Palestina. Os generais do exército romanos, os faraós do antigo Egito, os sátrapas dos Medos, os reis judeus e o sumo sacerdote nem na lista estavam. Alguns poderiam pensar que era o Imperador Romano. Ledo engano, “entre os nascidos de mulher não surgiu ninguém maior do que João Batista.”£ Aos olhos de Deus, grande pode ser pequeno para mim e grande pode ser pequeno para Ele. Quem o sabe?

Fico aberto a comentários. Sinceramente, penso que este post não vai ser lido por seu tamanho e desorganização de idéias. Então espero que Deus o comente em meu coração. A perspectiva de uma simples bivocação torna as coisas menos pesadas para qualquer ser humano. Desaparece o senso de destino a algo maior que tanto incomoda às vezes.
Talvez assim, eu consiga enxergar uma vocação que posso estar rejeitando há tempos. A luta interior pela descoberta de uma vocação gera em nós desconforto. Pois “há sempre uma sensação de doença quando vemos pessoas cujo trabalho e estilo de vida não se afinam com as suas vocações. (...) A negação da vocação invariavelmente provoca a falta de sucesso e a miséria pessoal.”¢

“Deus chama cada um de nós para nosso próprio caminho de sucesso, embora esse sucesso tenha muito pouca relação com os padrões do mundo. (...) Já foi demonstrado que as pessoas detêm o poder de aceitar ou rejeitar chamamentos, mas no nível – se existir – que eles realmente podem escolher de suas vocações raramente é demonstrável.”+

Bibliografia
* M. Scott Peck, M.D. Um Mundo esperando para nascer: a civilidade redescoberta (pg. 80). Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
§ Ibid, pg. 81.
# Romanos 9.21 [NVI]
£ Mateus 11.11 [NVI]
¢ Op. cit, pg. 87.
+ Op. cit, pg. 86, 99.

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