Defendeu a primeira tese de doutorado em Astronomia de Harvard em 1925. Era intitulada Stellar Atmospheres. Cecilia afirmou que o Sol, e a maioria das estrelas do universo eram constituídas quase que inteiramente por hidrogênio ionizado (mais de 90%). Havia um problema: naquela época, a maioria dos astrônomos acreditava que as estrelas eram constituídas de átomos pesados.
O orientador de Cecilia, Harlow Shapley enviou uma cópia de sua tese para Henry Norris Russell, o astrônomo mais respeitado quando se tratava de espectro estelar. Russell já havia afirmado em trabalho anterior que o Sol era constituído em 66% de ferro e que, apesar de muito bem feita, a tese de Cecília tinha algum problema, pois era impossível que o hidrogênio fosse milhões de vezes mais abundante do que os metais.
Mas, contrariando a opinião então vigente, Cecilia Payne-Gaposchkin, uma mocinha com apenas 25 anos, opôs-se a reconhecidos e respeitáveis astrônomos.
Em janeiro de 1929, ao ler os trabalhos de um seu estudante de doutoramento (Donald Menzel) sobre o espectro solar, Russell reconsiderou sua posição sobre a abundância do hidrogênio e deu crédito a Cecília.
É interessante perceber que, apesar de apresentar dados que comprovassem sua tese, Cecilia teve suas idéias rejeitadas. Dara Horn, ao explicar este fenômeno, escreveu:
“Acredito que o trabalho de [Cecilia Payne-Gaposchkin] sobre o espectro estelar foi parado em suas trilhas por três fatores que não têm nada a ver com astronomia: ela era uma mulher, era jovem e era for a do comum. O primeiro e o segundo destes fatores levaram as pessoas a subestimá-la, seja por interpretar mal seu gênio ou por assumir (e talvez esperar) que ela não seria capaz de fazer o que fez. O terceiro, o brilhantismo que colocou sua pesquisa além do entendimento daqueles que era supostamente mais velhos e sábios, em fim fez com que ela subestimasse a si mesma – um fato que ela reconheceu em vida.”
A forma como Cecília subestimou a si mesma levou-a a aceitar ter sua área de pesquisa trocada. Submestimar-se é não dar o devido valor a si mesmo por considerar a opinião dos outros mais valiosa, certa e importante que as nossas próprias conclusões sobre nós mesmos.
Obviamente, em certos casos, é preciso ter senso suficiente para ouvir e acatar aquilo que os outros têm a dizer a respeito daquilo que pensamos ou fazemos. Os demasiadamente orgulhosos não escutam as vozes ao seu redor quando lhe avisam do buraco à frente. Os demasiadamente humildes se recusam a reconhecer em si talentos e potencialidades. Um equilíbrio deve ser encontrado em nossa postura. Luto todos os dias para achar este ponto, mas sinceramente, acho que ele se move como os elétrons nos átomos. Quando pensamos que os vimos e assim poderemos analisá-los, então eles já estão em outro lugar. Lembra o Princípio da Incerteza de Heisenberg (outro conhecido de Ernest Rutherford)?
Subestimar-se é uma coisa comum quando lemos a história dos profetas. Jeremias disse que era uma criança, Gideão argumentou que era da menor tribo de Israel, Moisés disse que era gago.
Em 1977, dois anos antes de sua morte, Cecília foi homenageada pela Sociedade Astronômica Americana com o "Prêmio Henry Norris Russell" (Ironicamente o nome daquele que procurou dissuadi-la de suas idéias). No discurso em que aceitou a homenagem disse:
"A recompensa de um jovem cientista é a emoção de ser a primeira pessoa na história a ver ou compreender algo. Nada se compara a essa experiência ... A recompensa de um velho cientista é de ter visto um esboço crescer em uma grande paisagem. Não o quadro completo, que ainda está crescendo em pormenores, com a utilização de novas técnicas e habilidades."
Cecilia Payne-Gaposchkin morreu em 1979.
Referências bibliográficas
Dara Horn. Essays on Science and Society: The Shoulders of Giants. Science Maganize, 29 May 1998: Vol. 280. no. 5368, pp. 1354 – 1355. Disponível em: [http://www.sciencemag.org/cgi/content/full/280/5368/1354]. Acesso em: 10/mai/2007.
Jean Nicolini. Biografia resumida de Cecilia Payne-Gaposchkin. Disponível em: [http://www.reabrasil.org/solar/cp.htm]. Acesso em: 10/mai/2007.
Um comentário:
Angelo, muito interessante seu texto. Já tinha houvido falar nesta Cecilia Payne, a história dela é realmente impressionante, mais ainda sua contribuição para a astronomia!
Infelizmente, ainda são subestimadas muitas boas idéias e descobertas em virtude de seus criadores, que são mais julgados pelo sexo, idade, raça, etc, que pela sua real capacidade.
O mais difícil é não se deixar abater diante de tais dificuldades e percalços no caminho, e tentar sempre encontrar o equilíbrio!
Abraços, e obrigada pela visita e comentário no "Mineiras, Uai!".
Ana.
Postar um comentário