sexta-feira, 11 de maio de 2007

Pecadores enxotados

Poderia ser um culto normal, mas não foi. Enquanto o dirigente do louvor procurava tirar da consciência da congregação o frio que assolava o ambiente e colocar a adoração em foco, ele foi entrando. Era um sujeito alto, negro, magro que trazia um pacote de biscoitos recheados na mão. Tive a impressão de que ele estava sob o efeito do álcool. Ele entrou de supetão com as mãos erguidas e mexendo os lábios como se quisesse acompanhar a música que era entoada. Como alguém com alvo certo, ele percorreu o corredor do templo, atravessou em frente às cadeiras reservadas ao pastores e ficou em pé na primeira fileira com os braços levantados. Logo alguém se aproximou, falou algo em seu ouvido e ficou ali do seu lado. Mas aquilo não foi suficiente. Veio outra pessoa e “conduziu” aquele sujeito para fora do templo. Ele se mostrou relutante, mas sua resistência foi vã diante da insistência alheia. Enquanto aquele sujeito era levado para fora do templo, palavras como glória e amém eram dadas pelos cristãos que jubilavam em resposta ao pregador que repetia: “Deus não se esqueceu de você! Deus não se esqueceu de você!”

Aquela cena me levou para longe. Não consegui direcionar minha atenção as palavras ditas através do microfone. Lembrei-me de um quadro citado por Philip Yancey em seu livro Maravilhosa Graça[i]: Festa em Casa de Levi.

Esta obra foi pintada por Paolo Veronese[ii]. Ele foi um importante artista no Renascimento em Veneza. Ela mostra uma cena ilustrando a Última Ceia. Mas algo assusta em sua obra. Existem ali, ao redor de Jesus e seus discípulos, anões vestidos de palhaços, um cachorro, um servo sangrando pelo nariz e pessoas das mais duvidosas reputações. Por causa desta obra, Veronese foi chamado pela Inquisição para prestar esclarecimentos e corrigir sua obra retirando os detalhes julgados inconvenientes.

Yancey argumenta que a obra choca, mas que ela retrata uma realidade que muitas vezes esquecemos: Cristo estava sempre entre os “pecadores” e não no meio dos “justos”. Lucas, ao relatar a visita de Jesus à casa de Levi, escreve:

Levi ofereceu um grande banquete a Jesus em sua casa. Havia muita gente comendo com eles: publicanos e outras pessoas. Mas os fariseus e aqueles mestres da lei que eram da mesma facção queixaram-se aos discípulos de Jesus: “Por que vocês comem e bebem com publicanos e ‘pecadores’?” Jesus lhes respondeu: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento”[iii].

Os publicanos e os pecadores estavam sempre ao redor de Jesus. Eles tinham sede de ouvi-lo. Todos aqueles que a sociedade judaica considerava como escória enxergavam alguma coisa diferente na maneira como Jesus falava. Os soldados enviados para prendê-lo voltaram dizendo que “ninguém jamais falou da maneira como esse homem fala”[iv], a mulher samaritana chamou a cidade toda para ouvir Jesus[v]. Eram os rejeitados, que muitas vezes nem no Templo podiam entrar; os enxotados pelos líderes religiosos como cachorros, os cegos, os leprosos, os imundos segundo a Lei, os cobradores de impostos, os gentios, os soldados, os leigos pescadores, as donas de casa. Estas eram as pessoas que cercavam Jesus, suas ovelhas, sua multidão.

Tiago escreveu algo sobre o tratamento com parcialidade. Pela manhã resolvi dar uma relida no que a bíblia tem a dizer sobre isto e tive uma surpresa: histórias se repetem. Ele escreve:

Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade. Suponham que na reunião de vocês entre um homem com anel de ouro e roupas finas, e também entre um pobre com roupas velhas e sujas. Se vocês derem atenção especial ao homem que está vestido com roupas finas e disserem: “Aqui está um lugar apropriado para o senhor”, mas disserem ao pobre: “Você, fique em pé ali”, ou: “Sente-se no chão, junto ao estrado onde ponho os meus pés”, não estarão fazendo discriminação, fazendo julgamentos com critérios errados? (...) Mas se tratarem os outros com parcialidade, estarão cometendo pecado[vi].

Enquanto estes pensamentos e a cena passam pela minha cabeça, fico me perguntando: e se fosse eu aquele homem? Como eu veria Cristo e os cristãos daquele dia em diante? E se eu fosse aquele alguém que se sentiu impelido a “conduzir” o visitante indesejável para fora? Será que na mesma situação eu também não faria a mesma coisa?


Referências bibliográficas

[i] Philip Yancey. Maravilhosa Graça. São Paulo: Vida, 2002.
[ii] Paolo Veronese. Disponível em: [http://en.wikipedia.org/wiki/Paolo_Veronese]. Acesso em: 11/mai/2007; Escolas de Pinturas. Escola Veneziana. Disponível em: [http://www.areliquia.com.br/artigos%20anteriores/reliquia_outubro_2004/escolapint.htm]. Acesso em: 11/mai/2007.
[iii] Lucas 5.29-32 [NVI]
[iv] João 7.46 [NVI]
[v] João 4.29 [NVI]
[vi] Tiago 2.1-4;9a [NVI]

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