quinta-feira, 3 de maio de 2007

Reprovação e estranhamento

Antes de me tornar psicólogo, eu pensei em ser um punhado de coisas. Mas uma situação me marcou em especial. Eu queria ser arquiteto. Hoje, pela manhã, eu estava me lembrando do dia em fui fazer a prova de habilidade específica para prestar vestibular. Eu achava que desenhava razoavelmente. Pelo menos o suficiente para ter a chance de entrar no curso. Naquele ano eu estava terminando o ensino médio e estagiava perto da Unb. Fui andando do serviço até o local da prova. Daquele momento em diante, uma sensação de estranhamento, de não pertencimento começou a encher minha mente. Eu andava pela Unb e não tinha noção do local para onde deveria me dirigir. Com alguma sorte cheguei com tempo para observar carros luxuosos pararem em frente ao prédio. Rapazes e moças que pareciam ter um ar de superioridade desciam daqueles veículos carregando consigo estojos. Eu tinha em mão um lápis nº 2 e uma borracha (se a memória não falha). O que eles teriam de tão especial nas suas bolsas? Quando a prova começou, pude observá-los espalhando seus lápis de vários formatos e borrachas estranhas. Quando pediram para desenhar conforme o modelo que estava sentado sobre mesa à frente da sala, eles começaram a medir a pessoa com aqueles lápis. Como naqueles desenhos em que o artista fica medindo e procurando o ângulo certo.

Apesar disto tudo, de me sentir uma sardinha em meio a golfinhos, eu saí da prova confiante. Afinal de contas, eu havia feito curso de desenho técnico em edificações e estagiava desenhando. No tempo em que não era comum às pessoas acessarem internet, eu fui pessoalmente verificar a lista de aprovados. Corri os olhos pelos nomes afixados na parede. Não achei meu nome. Depois passei nome a nome com os dedos. Nada. Então achei uma lista ao lado daquela com o título nada inspirador: reprovados. Aventurei-me por ela na esperança de que não achando meu nome ali, deveria procurar a administração, o reitor ou sei lá quem para alertá-los de que havia alguma coisa errada. Encontrei meu nome no início da lista na primeira olhada. Então aquela sensação de estranhamento me encheu completamente. Voltei para o trabalho cabisbaixo, derrotado.

Não sei por que esta cena me veio à mente hoje pela manhã. Talvez por que naquele dia eu desisti da Arquitetura. Talvez por que ali, eu acordei de um sonho de adolescente: a ilusão de que se pode mudar o mundo e sua própria vida tornando-a o que se quer de um momento para o outro, feito mágica. Acho que foi naquele dia em que descobri que nada é tão fácil quanto parece. A vida é mesmo muito difícil, como escreveu M. Scott Peck em The Road Less Traveled. Aquela sensação de estranhamento tinha uma razão de ser. Eu estava entrando em lugares sonhados, mas arredios. Sonhos são assim mesmo: arredios e teimosos. Eles insistem em não acontecer, em não serem lembrados, em serem bagunçados. Nós persistimos em domá-los, em torná-los realidade, em organizá-los. Mas a luta é intensa e muitas vezes desleal.

Talvez seja isto que minha mente queria trazer para mim hoje pela manhã quando me trouxe de volta esta história. Ela queria me lembrar de algumas coisas: 1) Sonhos são entidades teimosas. E para se vencer um teimoso, só alguém mais teimoso ainda. 2) Nem todo sonho termina bem quando ele é só uma decisão de momento, pois se eu realmente quisesse ser arquiteto não desistiria. 3) Na maioria das ocasiões, a vida se mostra injusta. Acostume-se com isto. 4) Sempre existirão pessoas em posições mais privilegiadas que a sua. Sempre existirão pessoas menos privilegiadas que você.

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