quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Hoje fui à praia e o mar me abraçou

Hoje fui à praia. Acordei bem cedo, uma vez que por aqui o sol nasce ainda antes das seis da manhã. A luz que entrava pela janela do quadro despertou-me naturalmente. Acordei disposto e feliz por estar tão perto do mar. Levantei-me, abri a janela e deixei sua maresia alcançar minha mente e a visão de suas águas encherem meus olhos. Parei perplexo por alguns instantes. Apesar de tantas vezes, ainda fico encantado com tamanha beleza.

Tomei um bom banho, vesti uma roupa confortável e desci pelas escadas. Atravessei a rua asfaltada coberta de areia fina e clara da praia que o vento traz todas as noites. Parei um pouco sobre a calçada da orla, olhei novamente a imensidão de azul, verde e tantas outras cores.

Tirei a sandália e pisei a areia. Remexi os dedos dos pés para senti-la melhor. Respirei fundo a brisa marinha e comecei minha caminhada. As luzes no céu ainda estavam indefinidas, numa mistura de azul noturno, tons amarelados e alaranjados, algumas notas vermelhas e até algum roxo. Simplesmente lindo. A areia quase bege, um pouco branca, trazia o equilíbrio entre as cores do céu, do mar e do chão. Caminhei pisando a areia fofa até chegar mais perto de onde as ondas terminam seu passeio até a praia.

Pisei a areia úmida e recalcada pelas constantes doses de água salgada em forma de espuma. Deixei uma ondinha tocar meus pés. Fui caminhando rente à areia recalcada em direção leste, onde o céu começava a tomar tons mais alaranjados. O círculo do sol começava a se mostrar no nascente.

Fui para mais perto do mar. Deixei-o molhar bem meus pés. E o sol foi subindo sem pressa para reinar durante o dia. Fiquei ali parado, com as ondas indo e vindo molhando meus pés, observando o sol se espreguiçar até acordar por completo e tornar o céu azul celeste. Seus raios foram ficando mais fortes até ser impossível não senti-los no rosto. Dei mais alguns passos em direção ao mar. Já com as pernas molhadas, os raios solares refletindo na água forçaram meus olhos a fecharem-se um pouco, como que reverenciando tão grande espetáculo.

Agradeci a Deus por tão grande favor. Os ateus que me perdoem, mas eu não poderia deixar de reverenciar o Criador de tão lindo cenário. Ali mesmo dirigi meus pensamentos a Deus. Diante de tanta beleza, deixei uma canção fluir. Não se tratava de uma música ou de um poema. Eram palavras soltas ao vento, sem muito sentido quando unidas. Só sei que elas devem ter chegado aos ouvidos dele de forma muito inteligível. Quando nos faltam as palavras, nosso coração se encarrega de nos ligar a Deus. Foi o que aconteceu.

Derramei algumas lágrimas dentro de mim, sorri para ninguém, contemplei novamente aquela cena e corri. Joguei minhas sandálias para a areia e corri. Passos largos e altos para pular as ondas já quase finalizadas na areia. Corri em direção ao mar. E como que num abraço conjunto, o sol brilhou mais ainda, o vento sobrou mais forte e o mar deixou-se levar. Como numa sinfonia cuidadosamente ensaiada várias vezes, uma grande onda veio em minha direção. No impulso em que vinha, joguei-me nas águas do mar antes que a onda quebrasse.

E o mar me abraçou. Senti suas águas correndo por meu corpo, envolvendo-me e balançando-me. Escutei o som de suas águas movendo-se rapidamente em várias direções. Senti bolhas de ar massageando-se. Foi um instante eterno.

Levantei-me e ainda consegui ver aquela onda acabar-se na areia. E logo veio outro abraço, e mais outro e ainda muitos outros. Cada um deles era único. Num momento de devaneio, abri meus olhos e vi as bolhas de ar e as correntes de água remexerem o fundo de areia. Senti e vi o abraço do mar.

Quando a respiração tornou-se ofegante, fiquei ali, no meio do mar, em pé, um pouco parado. Abri os braços deixando o balanço do mar me fazer cafuné e o som do vento mexendo as águas cantar-me uma cantiga de ninar.

Olhei para todos os lados certificando-me que ninguém poderia tomar-me por louco e cochichei que tinha que ir. Lentamente fui retirando-me de suas águas, tomei minhas sandálias e dei mais olhada no azul do céu e no colorido do mar. Talvez você não vá acreditar, e se me contassem e também não acreditaria, mas antes ao virar-me, escutei uma grande onda quebrando. Virei-me e vi o mar avançando muito sobre a areia. Fora uma onda muito grande. Então entendi: era o mar acenando seu braço e me dizendo um “até logo”.

PS1: Todas as fotos da montagem acima, exceto uma, são de minha autoria.
PS2: Quem me dera eu realmente tivesse ido à praia...

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