“Absolutamente nada, coisa alguma me pertence. A minha insistência em possuir alguma coisa torna-a imprestável.”
Nos últimos dias, venho pensando sobre como viver de maneira mais significativa. É uma tarefa meio trabalhosa encontrar uma solução para essa questão. Viver de maneira plena significa fazer de minha vida algo que valha a pena e poder retirar de minha mente o medo de chegar ao final da estrada e concluir que não fiz tudo aquilo que Deus gostaria que eu fizesse. A idéia de gastar toda uma vida naquilo que Deus não planejou é muito assustadora para mim.
Como escreveu Rick Warren: “Quando seus dias acabarem, a única coisa que vai realmente importar é se você realizou o propósito de Deus para sua vida.” (1)
A vida é mais do que uma simples sucessão de acontecimentos e decisões tomadas no nível pessoal. Ela é um presente a ser administrado conforme as instruções daquele que a entregou. É por isso que viver plenamente implica em saber que absolutamente nada, coisa alguma me pertence e que a minha insistência em possuir alguma coisa torna-a imprestável.
Quando alguém acha que possui alguma coisa, que é seu proprietário, então supõe ter o direito de fazer com aquele objeto o que achar mais conveniente segundo suas próprias idéias. Quem em sã consciência perguntaria a seu vizinho se pode ou não trocar o revestimento da cozinha de sua casa? Esta pergunta soa patética exatamente porque ao dizer que sou o dono de alguma coisa, assumo que tenho o controle sobre ela.
Mas é justamente esse sentimento de posse de alguma coisa nesta vida que é a maior das ilusões que um ser humano pode ter.
Jesus disse uma vez que “quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, este a salvará. Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se ou destruir a si mesmo?” (2)
Quando me apego àquilo que chamo de “minha vida”, então eu a perco. É isto o que Jesus está dizendo. Isso funciona mais ou menos assim: quando sinceramente acredito que sou dono da minha vida, então assumo que devo ter controle sobre ela. Isso me autoriza a tomar as decisões sobre minha vida, afinal, ela me pertence. Então uso meu corpo como quero, meu tempo como achar conveniente e meu dinheiro como planejei.
É aí que mora a ilusão. Eu não possuo minha própria vida. Não fui eu quem a criou e nem sei como ela realmente funciona. Partindo da premissa que sou o dono de minha vida, começo a tomar decisões que, ao invés de salvar minha vida, de fazê-la valer a pena, de levar-me à plenitude, levam-me a desperdiçá-la completamente.
Nem sempre percebo que estou jogando minha vida fora porque os prazeres que obtenho do pecado me servem como um narcótico. Eles alteram meu estado de consciência espiritual fazendo-me acreditar que tudo está muito bem. Não penso que seja uma mera coincidência o fato de que as palavras narcótico e narcisismo tenham a mesma origem grega: narke. O narcisismo me entorpece deixando-me inabilitado para perceber a realidade. Então sigo gastando minhas energias inutilmente.
O desperdício da vida não está somente nos prazeres que posso tirar do pecado, mas no fato de que a missão que me foi confiada por Deus não foi cumprida. Deus me dotou de um conjunto de talentos, me colocou num contexto planejado e me pôs em contato com pessoas específicas para que eu lidasse com determinadas situações. E tudo isso com um único propósito: o pleno cumprimento da missão que Ele pessoalmente me confiou.
C.S.Lewis fez uma ilustração para mostrar a nossa posição como “posseiros” de nossas vidas:
“É como se um pequeno príncipe, colocado pelo pai, por amor, no comando de alguma grande província, sob a regência real dos sábios conselheiros, passasse a imaginar que ele realmente é o dono de todas as cidades, florestas e semente, do mesmo modo que é dono dos bloquinhos de montar com que brinca no chão da creche.” (3)
Pequenos príncipes que se vêem como grandes reis: esse é o nosso problema! Ao afirmar que esta é minha vida, estou dizendo que posso usá-la como quero para satisfazer meus desejos, pois sou senhor de mim mesmo. E se meus desejos são meus guias, logo, sou escravo de meus próprios desejos, pois “o homem é escravo daquilo que o domina” (4). O que parece ser a plena liberdade (eu, senhor de minha vida) torna-se uma escravidão (eu, dominado por meus desejos).
Não existem tantos senhores quantas vidas. Dito de outra forma: existem somente dois senhores a quem minha vida possa ser entregue. Sobre isso, Paulo, escrevendo aos romanos, apresenta as duas opções de senhores a quem podemos servir. Ele diz assim: “Não sabem que, quando vocês se oferecem a alguém para lhe obedecer como escravos, tornam-se escravos daquele a quem obedecem: escravos do pecado que leva à morte, ou da obediência que leva à justiça?” (5)
Uma pessoa pode e deve escolher seu senhor. Posso escolher ser escravo do pecado ou da obediência, posso decidir servir meus próprios desejos ou abrir mão deles para viver o propósito de Deus para mim. É uma escolha pessoal.
Então, na busca de elementos para tomar essa decisão, atento para os setenta ou oitenta anos que vou passar neste mundo e percebo que eles são absolutamente nada quando comparados com aquilo que a eternidade realmente representa. Como escreveu o casal Shook: “A transitoriedade desta vida deveria manter nosso foco naquilo que é mais importante”. (6)
Nós deveríamos ter em mente que entregar nossa vida totalmente a Cristo não é uma simples entrega, é uma devolução da propriedade ao seu dono de fato. Por mais que muitos de nós neguemos a verdade destas palavras, a nossa vida não tem nada de minha; ela é de Deus. Nas palavras do personagem de C.S.Lewis, o demônio Fitafuso:
“E durante todo o tempo a grande piada é que a palavra ‘meu’, no sentido puramente possessivo, não pode ser pronunciada por um ser humano sobre coisa alguma. (...) No fim, os humano saberão, esteja certo, a quem seu tempo, suas almas e seus corações realmente pertencem – e com certeza não pertencem a eles, independentemente do que aconteça.” (7)
Posso começar a viver sob uma perspectiva de eternidade e viver para Deus. Então irei procurar conhecer sua vontade para minha existência e determinar a mim mesmo que irei buscar vivê-la a todo curso. Ou posso debruçar-me sobre aquilo que vejo agora e ser dominado por meus próprios desejos. É uma escolha pessoal que nem mesmo Deus se permite retirá-la de mim.
Para meditar um pouco mais:
A. Faça o download do primeiro capítulo do livro Um Mês para Viver, de Kerry e Chris Shook e faça um comentário aqui no blog sobre o que a leitura te fez pensar.
Referências bibliográficas:
(1) Kerry e Chris Shook. Um Mês para Viver. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. Pg. 9.
(2) Lucas 9.24,25 [Nova Versão Internacional]
(3) C.S.Lewis. Cartas de um diabo a seu aprendiz. São Paulo: Martins Fontes, 2005. pg. 107.
(4) II Pedro 2.19 [Nova Versão Internacional]
(5) Romanos 6.16 [Nova Versão Internacional]
(6) Kerry e Chris Shook. Um Mês para Viver. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. Pg. 20.
(7) C.S.Lewis. Cartas de um diabo a seu aprendiz. São Paulo: Martins Fontes, 2005. pg. 108.
Um comentário:
Brigadinha pela visitinha...
Esatrei vendo seu blog com mais calma...
Deus te abençõe!!! :o)
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