quinta-feira, 10 de julho de 2008

Saúvas e destino

A caminho do trabalho, encontrei, por acaso, uma formiga. Não era uma formiga qualquer, era daquele tipo que consegue carregar muito peso; uma saúva.Passei muito rápido por ela. Acho que a criatura nem percebeu meu olhar, pois andava a passos ligeiros. O inseto carregava uma folha enorme quando comparada com seu pequeno tamanho. Muita força estava sendo investida naquela folha, pois as saúvas cortam pedaços de folhas e carregam-nos para os ninhos. Aqueles pedaços nutrem os fungos que constituem o seu alimento exclusivo.

Havia somente um problema: ela estava fora da trilha para o formigueiro. Normalmente, estas formigas andam em trilhas que conduzem suas casas, mas esta estava perdida no meio da calçada. Seu destino estava praticamente traçado. Eu posso tê-la visto e desviado meus pés, mas quem garante que todas as outras pessoas irão vê-la e ter a compaixão suficiente para mantê-la viva?

Fiquei pensando naquela formiga enquanto continuava meu caminho para o trabalho. Na sua “cabeça”, ela estava fazendo a coisa certa (carregando folhas), investindo muita força nisto (a folha era maior do que o corpo da formiga) e procurando seu destino final (o formigueiro). Mas ela estava sinceramente enganada.

Apesar de toda sua sinceridade, determinação e força, todo seu investimento estava fadado ao fracasso porque ela estava fora de sua trilha original. Provavelmente, ela nunca chegaria ao formigueiro. Todo seu empenho e investimento seriam desperdiçados e a morte seria seu fim.

Quantas vezes somos como aquela formiga? Será que neste exato momento não estamos comportando-nos como ela? Será que estamos sinceramente enganados, sinceramente envolvidos com algo que não vai dar em nada porque estamos fora do caminho originalmente previsto?

Não vale a pena investir força e fazer a coisa certa se o meu destino final não será cumprido. Todo esforço sincero será inútil. Para onde estou indo? Em que estou investindo minhas forças?
Por mais que pareça idiota, oro para que aquela pequena criatura na calçada que me fez acordar para algumas coisas, possa, por fim, reencontrar sua trilha original, seu destino final. Quando finalmente ela chegar ao fundo do formigueiro e depositar aquele pedaço de folha na criação de fungos, suas companheiras ouvirão seu relato:

“Estive próximo de desistir, de morrer, de abandonar-me ao que chamam de derrota. Mas, de alguma forma que não entendo, percebi que o caminho por onde estava seguindo estava errado. Ele não me levaria a meu destino final. Como num estalo, entendi que deveria parar durante algum tempo num lugar seguro, longe dos pés apressados na calçada, descansar um pouco e procurar com mais afinco o caminho original. Eu sabia que esta não seria uma tarefa fácil. O sofrimento não é agradável, mas se mostra um ótimo professor. Senti-me perdido. Foi nesse momento que percebi que a sinceridade não é tudo. É preciso encontrar o propósito final das coisas e então persegui-lo.”

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