Certa vez, um discípulo aproximou-se de seu discipulador e começou a relatar todas as suas dificuldades. Ao final de sua narrativa, ele perguntou: “por que passo por tudo isto?” O discipulador sorriu e respondeu: “por que você é um ser humano.”
As dificuldades são inerentes à humanidade. E não é por que sou um cristão que fui excluído de minha condição humana. Mas como disse Daniel Taylor em The Myth of Certainty [O Mito da Certeza][i], eu posso escolher o propósito pelo qual passo por estas dificuldades. Posso simplesmente passar por elas como alguém que ingere uma comida que não gosta ou posso entendê-las como uma forma de disciplina.
Não me leve a mal; quando falo de disciplina, refiro-me ao seu original Paidéia[ii]. É esta palavra que o escritor de Hebreus utiliza em sua carta; ele diz: “suportem as dificuldades, recebendo-as como disciplina”[iii]. Sabe o que era Paidéia? Era a forma como os meninos gregos eram instruídos para se tornarem cidadãos e líderes de fato.
Funcionava mais ou menos assim. Bem cedo, o pedagogo (que naquela época era uma espécie de escravo com responsabilidades de quase tutor) levava o menino até a palestra (um lugar parecido com nossa escola hoje). Ali, o menino era instruído na literatura, música, ginástica e outras disciplinas.
Se eu considerar todo este contexto, vou perceber que disciplina, no sentido apresentado em Hebreus, não é uma forma de punição ou castigo, mas sim um treinamento, um período de instrução. Por que nossos pais nos colocaram na escola? Por que eles queriam que aprendêssemos coisas que eles julgavam necessárias à nossa vida adulta. Não estou afirmando que Deus tenha me providenciado dificuldades propositalmente. O que quero dizer é que ele me dá a chance de aproveitar os momentos difíceis que fazem parte de minha condição humana para que eu seja instruído na arte da fé, da perseverança, do caráter provado à semelhança de Cristo. Acredito mesmo que foi pensando nisto que Tiago escreveu: “considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma”[iv]. Tiago queria nos mostrar que eu posso deixar que Deus use minhas dificuldades como insumos para que o caráter de Cristo seja gerado em mim.
Para mim, particularmente, estes são dias de cansaço pelas diversas dificuldades pelas quais tenho passado. Fico feliz, porém, por que sei que não sou o único e nem o último que vai experimentar estes momentos difíceis. Antes de dormir ontem à noite, na minha fé, que às vezes parece infantil, pedi que Deus me falasse algo por meio de um Salmo. Deus falou ao meu coração por meio do Salmo 57.
Davi estava num momento parecido com o meu: um tempo de dificuldades. Ele estava fugindo de Saul que desejava matá-lo a todo custo, então se escondeu numa caverna. Naquele lugar, Davi podia ficar resmungando. “Fui ungido rei para passar por tudo isto?”, ele podia ter pensado. Mas a opção de escolher o propósito pelo qual ele passaria pela dificuldade estava diante dele. E ele fez uma escolha: confiar e deixar que o momento difícil fosse usado por Deus para lhe fazer crescer. Inspirado por uma mistura de confiança no Senhor e noção exata do perigo que lhe acometia, Davi clama ao Senhor e declara: "Eu me refugiarei à sombra de tuas asas, até que passe o perigo"[v].
Só quem já viveu no deserto sabe o que significa uma sombra diante do sol escaldante. Sombra é lugar de descanso depois de uma longa jornada, mas também um lugar onde se dá uma pausa até que as forças sejam renovadas ou até que se decida por uma nova direção.
Nos salmos, a sombra das asas do Senhor é um lugar citado como de descanso e segurança. O Salmo 63.7, diz que "porque és minha ajuda, canto de alegria à sombra das tuas asas". O Salmo 17.8 diz: "protege-me como à menina dos teus olhos; esconde-me à sombra de tuas asas." O Salmo 36.7 diz: "como é precioso o teu amor, ó Deus! Os homens encontram refúgio à sombra das tuas asas." O Salmo 121.8 diz: "o Senhor é o seu protetor, como sombra que o protege, ele está à sua direita."
Minha oração, Senhor, é que eu entenda minha condição humana, compreenda que ela implica dificuldades, decida por viver estes momentos difíceis como um processo de Paidéia divina e deposite minha confiança em Deus, pois assim descansarei "à sombra do Todo-Poderoso"[vi].
Referências bibliográficas
[i] Daniel Taylor. The Myth of Certainty. Illionas: InterVarsity Press, 2000.
[ii] Veja mais em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Paid%C3%A9ia.
[iii] Hebreus 12.7
[iv] Tiago 1.2-4
[v] Salmo 57.1b
[vi] Salmo 91.1
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