terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Coisas ou ângulos diferentes?

Eu escrevi este texto há mais ou menos uns dois anos atrás. Quando o li novamente hoje, revivi algumas angústias passadas. O estilo é menos maduro e mais emotivo do que hoje. Então dei uma pequena adaptada e coloquei aí para alguém ler. É longo para um blogger, mas é lindo. Se alguém ler e gostar, coloquer um comentário aí, por favor.

Lembro-me de um dia estar pensando na parábola do filho pródigo e vê-la por outro ângulo. Fiquei pensando no que o filho pensou antes de tomar a decisão de voltar. Ele não deve ter tomado esta decisão de uma hora para outra. Era algo arriscado, seu pai poderia não aceitá-lo. Mais do que isto, o que os vizinhos pensariam, o que os empregados pensariam, o que seu irmão pensaria, o que o pai pensaria, seus familiares? O que eles diriam àquele filho que pediu sua herança?
Quando ele pediu sua herança, ele estava dizendo ao pai, aos familiares, aos vizinhos, aos empregados e a toda a redondeza: vocês não me prestam mais, eu quero outra coisa, outros caminhos. Ele tomou uma decisão de negar o que era, de negar o lugar que lhe acolheu e cuidou dele. Ele foi se arriscar em outras vidas. Se deu mal nesta caminhada. Creio que a primeira coisa que veio na sua cabeça foi o significado do retorno. Era admitir que sua escolha fora errada, que o caminho que ele tomou não deu certo, que ele se deu mal. Era uma vergonha... Admitir um erro é difícil, mas nesta situação seria vergonhoso. O filho pródigo não era maluco; todos tomamos decisões achando que elas são as mais acertadas e melhores para nossas vidas, por que com ele seria diferente? Ele deve ter pensando, parado e pensado de novo, pensado várias vezes até que tomou sua decisão de ir embora. Deve ter se sentido enfadado, sem perspectivas naquele lugar. Mas ao invés de tentar mudar sua maneira de ver as coisas que lhe pareciam rotineiras e sem futuro, ele preferia mudar as coisas. Foi neste momento que ele começou a ser dar mal. Não penso que seja pecado querer mudar as coisas, mas me parece que às vezes Deus quer é que mudemos a maneira como nós as vemos. Ele poderia ter feito festas em casa, convidado amigos, matado carneiros; ele poderia ter visto sua vida com outros olhos, mas ele não quis fazê-lo assim. Ele se foi, viver o que achava ser o melhor.
E na hora de voltar para casa? Por que voltar é reconhecer que o mundo que criamos para nós mesmos é pior do que pensávamos, do que esperávamos; que aquela casinha na roça, desinteressante, que nos proíbe de fazer um monte de coisas que temos vontade, esta casa, este lugar, é melhor para nós. Que vergonha eu sentiria! É admitir que falhei em tomar decisões. Que não soube administrar bem o que aquele lugarzinho me deu! Me deixei subverter pela lógica que vi acontecer fora de meu mundinho. Me deixei levar pelo desejo de possuir mais do que devia, de ter o que não podia e me era proibido. Me deixei atrair por amigos que queriam o que eu tinha e não o que eu era. Que realidade esta.
Numa saída desesperada, o filho cuida do que repugna e sente vontade de comer o que não lhe é natural. Quer o que não é seu, nem deveria ser seu. E, ao invés de pensar que deixou este algo lá atrás, quer encontrá-lo nas porcarias que encontra neste lixo de mundo. Vícios, prazeres momentâneos, estratégias para fugir de questões que são mais profundas, mais espirituais. A maior dor deve ser levantar e dizer àquele lugar e ao seu dono... "Eu tô voltando para casa, aqui não é meu lugar. Esta não é minha comida. Estes não são meus modos, esta não é minha vida."
Vejo o dono do lugar se virando e dizendo: "nunca te pedi para vir para cá, você que quis procurar algo para ti aqui. Você quer voltar? Já pensou no que vão dizer? Você disse a eles que aquele modo de viver não prestava, que aquela não era sua vida, que você não havia nascido para aquilo... agora quer voltar? Eles não te receberão."
Por dias o filho pródigo deve ter recebido esta mesma resposta; por dias deve ter chorado procurando respostas. Aquele lugar onde ele estava não matava sua fome. Mas voltar seria humilhante demais... Voltar para quê? Para quem?
"Mas não posso ficar aqui, a comida que estou comendo não está me satisfazendo, estou até querendo comer porcaria!?! Me ajude Senhor." Um dia ele se levantou e disse que ia mesmo... "Ainda que seja para não ter o lugar que tinha antes. Só quero estar naquela casinha..." Seus olhos começaram a ver a casa de outras formas. Aquilo que ele considerava uma casinha rotineira, sem graça, sem futuro, começou a despontar como um lugar de paz, um lugar onde as pessoas eram felizes, onde se comia uma comida que matava a fome mesmo, que não fedia, que aquecia, que alimentava. Penso que foi neste momento que ele não ouviu mais a voz do dono dos porcos.
Meu Deus! Era a mesma casa, o mesmo pai, os mesmos tudo, mas agora ele via com outros olhos, com olhos de quem perdeu e agora sabia o valor que tem. A gente não dá muito valor às coisas até que as perdemos, por que a gente acha que existe algo além. Mas este algo além só é conseguido através de nossos olhos, da maneira como vemos as coisas. O algo além só existe para quem antes soube ver o que os outros não viram nas coisas comuns ao nosso redor.
A vergonha de voltar, mesmo que fosse para ser humilhado, rejeitado, mesmo que fosse para isto, era melhor. Era melhor viver mendigando no seu lugar que num lugar que não era sei. Caramba! É melhor viver perto de Deus mendigando, caindo, comendo migalhas, do que num lugar que não alimenta a alma, onde achamos que as porcarias podem encher nossa barriga. As migalhas da mesa de nosso Senhor são melhores e saciam mais a alma do que as porcarias dos porcos ou as iguarias do erro. O pecado só é uma forma de enganar o trouxa, convencendo-o a gastar o suprimento que trouxe consigo em coisas que parecem ter algum significado.
Este sermão é para mim, é para aqueles que conheço e que já desistiram. Já não conseguimos olhar para nossa casinha com outros olhos. Algo nos atrai lá fora! Dizemos que não, mas estamos querendo nossas heranças para gastarmos de outra forma, em outras coisas. Assim vamos parar nos porcos.
Não devo fazer isto. Devo voltar ao casa de meu Pai. Reconhecer que gastei todos o suprimento em coisas ruins. Já estava querendo comer porcaria. Tenho medo de não ser aceito, tenho medo do que os outros da casa vão falar, tenho medo dos irmãos que vão apontar o dedo por não terem saído de corpo, mas que de mente nunca estiveram presentes. Eu só posso confiar que o Pai vai me aceitar, ele me quer de volta, ele quer que eu retorne a sua casa, ao ministério que ele tem para mim. Ele quer que eu administre alguma coisa, ele quer me restaurar os suprimentos, Ele me quer, Ele me quer. Ele quer me identificar como seu! Eu perdi o anel nas festas, dei o anel na tentava de comer! Ele quer me dar roupas novas, os outros me verão de maneira diferente. Eu tenho uma função nesta casa. Minha casa, meu lugar, meu ministério! E foi com estes pensamentos na cabeça que o filho pródigo foi dando um passo de cada vez em direção àquela casinha...

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