Como somos volúveis (inconstantes, mudáveis, instáveis) e felizes por causa disso. Imagine quantas coisas você já quis um dia e agora nem quer ouvir falar delas. Na adolescência, somos especialistas nisso. Um dia queremos a calça azul do Fiuk, no outro queremos o terno maneiro do CQC. Na segunda-feira, Maria Eduarda ama desesperadamente Vinícius; na terça, escreve no seu diário: “Vinícius é um grosso. Prefiro mesmo é o Paulo”.
Vou compartilhar alguns dos meus desejos dessa classe – os volúveis.
Já pensei que seria possível salvar as baleias por meio de um clubinho formado por crianças; quando eu mesmo era só uma criança.
Já quis ser saxofonista. Aprendi umas coisas e, depois de alguns meses, desisti antes de conseguir tocar uma música do Kenny G.
Já quis ser cantor em uma banda. Cantava muito pior do que agora e meus amigos mal sabiam fazer as notas musicais, mas a gente se chamava Lirochee Band (nos disseram que significava banda de louvor – aka!).
Já pensei em montar uma lanchonete gospel – o Banana Gospel Café. Meus sócios seriam os integrantes da Lirochee Band. Dá para entender por que não deu certo?
Já pensei em abrir uma escola de inglês. Até fiz pesquisa de mercado, distribuí panfletos e visitei clientes em potencial. Não passou disso – afinal, eu não tinha um centavo no bolso!
Já pensei em montar um restaurante por que, modéstia à parte, acho que cozinho bem. Preferi ficar fazendo minhas comidas para um público menos exigente e que me paga com carinho: minha família.
Acredito esse nosso hábito de sermos volúveis, mutantes, nos faz viver mais felizes. É essa capacidade de identificarmos a possibilidade ou a impossibilidade (talvez a “ridicularidade”?) de um desejo que nos leva a aprender a abrirmos mão de determinadas coisas para vivermos outras.
Persistir num sonho pode ser positivo, mas até quando? Quem garante que esse desejo realmente é algo bom para nós? Será algo possível ou recomendado nesse momento?
Persistir num sonho pode ser positivo, mas até quando? Quem garante que esse desejo realmente é algo bom para nós? Será algo possível ou recomendado nesse momento?
Os livros de auto-ajuda, sucesso de vendas ultimamente, querem nos convencer que todos os sonhos podem e devem ser concretizados por qualquer pessoa. Mas até que ponto isso é verdade? Uma das maiores frustrações infantis (psicanaliticamente falando) é descobrir que nem tudo que ela deseja é possível! Jesus mesmo não fez tudo o que queria, pois em certa situação ficou “impedido” de operar mais milagres por que as pessoas não tinham fé (Marcos 6.1-6)!
Imagine se quiséssemos sempre as mesmas coisas, ficando presos a desejos “inúteis”? Se buscássemos a todo custo um sonho mesmo sabendo que nosso desejo é ou ridículo ou impossível, ou inapropriado ou um tipo de coisa idiota, ou aquilo que não vai fazer diferença na nossa vida ou não é para esse momento? Que vida boba levaríamos, hein?
Não defendo aqui a inconstância ou a desistência dos sonhos. Sou o primeiro a ter sonhos que busco com afinco e já tive vários deles concretizados. Falo da capacidade de fazer mudanças conscientes de foco – reconhecer que algo definitivamente não é para mim por mil e um motivos. Refiro-me à habilidade de reconhecer os limites existentes em nossa vida e a não tratá-los como uma incapacidade pessoal em realizar algo – a vida é assim – nem todos podem tudo, somente Deus! E nós devemos encarar essa verdade.
Então, deixe de ficar pelos cantos por que o Fiuk não te dá bola! Olhe para o seu lado! Pare de sofrer por que sua banda não vai para frente – talvez vocês toquem mal como a Lirochee Band! Não esquente tanto a cabeça procurando formas de passar férias na Polinésia ou no Haiti. Alegre-se em ir a Caldas Novas! Esqueça por um dia que você tem um livro pronto para publicar, mas que não tem dinheiro. Escreva para um blog (é gratuito!). Desista de querer ser a pessoa mais agradável do mundo, pois o cara mais perfeito que já pisou na terra não conseguiu. Enfim, não fique se sentindo culpado por abrir mão de determinados sonhos por outros – isso não é fraqueza, é sabedoria.
Como escreveu o sábio em Eclesiastes 9.11: “eu descobri mais outra coisa neste mundo: nem sempre são os corredores mais velozes que ganham as corridas; nem sempre são os soldados mais valentes que ganham as batalhas. Notei ainda que as pessoas mais sábias nem sempre têm o que comer e que as mais inteligentes nem sempre ficam ricas. Notei também que as pessoas mais capazes nem sempre alcançam altas posições. Tudo depende da sorte e da ocasião.”
Aceite: c'est la vie – a vida é assim.
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